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Generalidades sobre o equipamento

      O material de pesca de arremesso  é um conjunto constituído de vara (caniço), molinete ou carretilha carregados com linha de náilon monofilamento, e tendo na extremidade um chicote ou rabicho com anzóis e chumbada. Pode parecer que até aí morreu o Neves, já que outras modalidades de pesca também são praticadas com os mesmos itens. Os americanos, que têm nome para tudo, distinguem estas diferentes modalidades como flycasting, baitcasting, spiningcasting, trolling, etc, cada qual com seu material específico. O surfcasting , como exige lançamentos fortes e longos, comumente sobre águas agitadas, também requer implementos apropriados. As varas são compridas e firmes, com potência e ação compatíveis com a carga de lançamento, e o molinete (ou carretilha) deve ter como característica favorecer arremessos a longa distância, com boa saída e capacidade de linha.

     Como estamos considerando a pesca de arremesso de beira de praia num sentido mais abrangente, não vamos ficar nos parâmetros do surfcasting propriamente dito, deixando de lado apenas o lançado ultraleve, a curtíssima distância, a chamada pesca na espuma, muito específica e técnica, que além de não configurar exatamente uma pesca de arremesso, não será certamente o objetivo de nenhum pescador de fim de semana, quanto mais de um iniciante.                  

     Isto posto, o equipamento pode variar dos tipos mais leves até os mais pesados, mas pode ser detalhado mais ou menos como exposto nos tópicos relativos ás diferentes categorias de pesca, mais adiante. Tem muito "mais ou menos" na história porque não existem limites rígidos nas especificações, podendo tudo variar ao sabor das condições da pesca e até das preferências pessoais do pescador.

     Durante muito tempo, os adeptos da pesca utilizaram (e ainda utilizam) o bambu e outras varas naturais como caniços de pesca. Ao entrar o século XX,  ainda predominavam as varas de bambu, ao natural ou industrializadas. Varas artificiais, como as de tubo de aço e de outros materiais então conhecidos, não conseguiram firmar-se no mercado, tendo vida efêmera. A grande revolução teve início em fins da década de 30 com a fibra de vidro e o surgimento nos anos 40, das primeiras varas de fibra de vidro tubular. Com o desenvolvimento tecnológico da indústria química chegou-se, para melhorar ainda mais as qualidades das varas, a tubos de grafite de carbono e boron, ao mesmo tempo em que a fibra de vidro também melhorava, tornando-se o tubo mais leve e resistente.   

     Pelo que se sabe dos levantamentos por pesquisadores do assunto, retrocedendo no tempo ao rastrearem a pouco documentada história da pesca, os primeiros vestígios de um aparelho parecido com uma carretilha datam de meados do século XVII. Na parca literatura a respeito, em que pese ser a pesca uma atividade humana das mais antigas, as primeiras menções á carretilha aparecem nos livros de Barker e Walton, autores ingleses . Isaac Walton, na 2ª Edição de seu livro "The Compleat Angler" (O Completo Pescador de Caniço), de 1655, refere-se á carretilha, chamando-a de "girador".Barker, em seu livro "Art of Angling ( Arte da pesca de Caniço), publicado pouco depois, inclui a primeira ilustração de uma carretilha de pesca (Ira N. Gabrielson, Fisherman's Encyclopedia).

     Como não poderia deixar de ser, as primeiras carretilhas eram simples e rudimentares, e não passavam de carretéis fixados á vara, com um pegador para girar a roda e recolher a linha. Foram as ancestrais das carretilhas de pesca de ação simples, até hoje usadas, não tinham nenhum mecanismo de frenagem, e a ação do pegador era direta, correspondendo cada manivelada a uma volta no eixo do carretel. Com o tempo e a evolução industrial, surgiram carretilhas melhores, dotadas de mais recursos: as automáticas, as usadas no flycasting, que recolhem a linha automaticamente, constituindo um aperfeiçoamento das carretilhas simples: as carretilhas multiplicadoras, que, por meio de um conjunto de engrenagens , multiplicam os giros da manivela transmitidos ao tambor, tornando rápido o recolhimento da linha, e as carretilhas de bobina fixa, também chamadas de molinetes, nas quais o carretel, colocado perpendicularmente em relação ao eixo da manivela, não gira, e a linha sai desenrolando-se, levada pela chumbada arremessada. A propósito, não vemos muito sentido em chamar de carretilhas multiplicadoras (multiplers reels)  as de carretel rotativo em oposição ás de bobina fixa , visto que ambas são multiplicadoras. Deve ser um termo consagrado pelo uso antes da popularização de bobina fixa, que chegou depois. Aliás, a Encyclopaedia Britânica chama a carretilha de revolving spool reel (carretilha de carretel rotativo). No Brasil, o uso passou a distinguir carretilha de molinete, que no fundo significam a mesma coisa.

              A origem da carretilha de tambor rotativo ( multiplier reel )  pode ser localizada nos Estados Unidos, onde foi desenvolvida nas primeiras décadas do século XIX, seus segredos zelosamente guardados pelos fabricantes Os primeiros modelos da carretilha de bobina fixa começaram a aparecer muito tempo depois, em fins do mesmo século, mas na Inglaterra. Informa o autor e renomado pescador esportivo Gilberto Fernandes ( Revista Pescatur nº 19, de 1973 ) que tudo começou na Escócia em 1884, quando um certo Peter Malloch bolou uma engenhoca que pode ser considerada a precursora dos modernos molinetes. Mais tarde, o inglês Alfred Holden Illingworth, aproveitando a idéia de Malloch, teria construído e patenteado o protótipo, que seria produzido em escala industrial pelas casas Hardy Brothers na Inglaterra e Pezon et Michel na França.    

     Já a história da linha de náilon monofilamento, que revolucionou a pesca amadora em geral e a de arremesso em particular, começou nos anos 30, quando uma equipe de pesquisadores da indústria química americana Du Pont, chefiada por Wallace H. Carothers, fazia experimentos com polímeros, do que resultou a obtenção, em 1938, de uma fibra sintética derivada da resina poliamida, batizada Nylon. A equipe de pesquisadores não estava decerto preocupada com pescarias, mas sua descoberta acabou por tornar-se a maior invenção em matéria de linhas de pesca.                   

     Antes da era do náilon, o que se usava eram linhas de seda trançada, linho irlandês, fios de algodão, linha indiana, etc.,com grandes inferioridades e deficiência em relação ao novo fio sintético. Quanto á distância que se alcançava no arremesso, nem se fale. Apesar disso, o fio de náilon dos primeiros tempos padecia de alguns defeitos, próprios de produtos pioneiros, como excessiva elasticidade, em decorrência do que a linha tendia a comprimir-se dentro dos carretéis, e prejudicando sua saída para o arremesso, afora o problema que causava ao pescador no fisgar e tentear o peixe, dando-lhe a impressão, de certo modo, de estar pescando com um elástico.

     Quanto ao anzol, sua história começou há tanto tempo que se confunde com a própria história da espécie humana. Pelas descobertas arqueológicas, supõe-se que os primeiros anzóis tenham aparecido na Idade da Pedra, no Período Neolítico, ou, quem sabe, no Paleolítico Superior. Assim, não se sabe quem o inventou, nem quando, nem onde. Na verdade, tudo leva a crer que não houve propriamente um inventor, mas, diante da necessidade de apanhar peixes para se alimentarem, os diferentes grupamentos humanos primitivos teriam desenvolvido truques e utensílios para isso, chegando aos anzóis de pedra, de osso, de madeira e outros materiais que encontravam. 

     Sabe-se que no antigo Egito dos faraós já se usavam anzóis  metálicos. A julgar pelas peças encontradas nas ruínas de Pompéia, nos bons tempos do Império Romano os súditos dos Césares contavam com excelentes anzóis de bronze.

     Pelo que se deduz dos primeiros (e poucos) livros sobre a pesca conhecidos, publicados desde fins do século XV, principalmente na Inglaterra , os pescadores de antanho, profissionais ou amadores, precisavam construir manualmente seus próprios anzóis, assim como outros apetrechos de pesca. Ser pescador, mesmo amador, no passado era mais difícil e trabalhoso. Muita gente comprava agulhas de costura e, torcendo-as, delas fazia anzóis. Também fabricante de agulhas produziam anzóis sob encomenda. Os anzóis do tipo "fundo de agulha", até hoje usados, devem ser resquícios dessa época.  

     No século XVII já existiam fabricantes profissionais de anzóis, a quem qualquer interessado podia encomendá-los, provavelmente especificando os tamanhos desejados e a um custo pouco popular. Os nomes Kirby, Sproat e outros  construtores famosos deste tempo acabaram transformando-se em tipos clássicos de anzóis, até hoje fabricados e largamente utilizados em todo mundo. Desses tempos a esta parte , o maior melhoramento de que o anzol se beneficiou não aconteceu exatamente com a peça, mas sim, com o seu processo de fabricação, que desde 1887, por iniciativa da fábrica norueguesa Mustad, passou a ser mecanizado para a produção em grande escala,promovendo, em conseqüência,a popularização do anzol.


Anzol de pedra polida, encontrado na ilha de Páscoa


Anzol feito de osso, de 6.200 a,C


Anzol havaiano de concha, dotado de ponta farpada, com a farpa do lado de fora


Anzol finlandês de madeira


Fonte: Noções Gerais de Pesca de Arremesso
Autor: Silvio Fukumoto